Leiam a notícia e vejam se vocês não vão me dar razão: Está sendo filmado, na Tunísia, aquilo que parece ser uma produção para TV da BBC em parceria com uma produtora local (local deles, não nossa). Trata-se de um filme sobre a vida de Saddam Hussein, também conhecido pela alcunha de "açougueiro de Bagdá" e que teve uma morte no mínimo macabra nas mãos dos americanos - embora, claro, de ditador eu não tenha pena nenhuma.
Atentem para o elenco. O papel principal foi dado a um ator judeu israelense, e os papéis de suas esposas (duas) foram dados a uma atriz americana de origem iraniana e a uma... australiana, descendente de ingleses mesmo. Pra completar, em uma produção inglesa.
Se acompanharam meu raciocínio, são todos de países que não gostavam, exatamente, do véio al-Tikriti.
Tá, eu sei que é difícil falar em bias negativo em se tratando de Saddam - a folha corrida do sujeito fala por si só. Mas eu adoraria ver o resultado disso. E confio muito mais na independência da BBC que em qualquer outra coisa (ou governo que possa baixar por lá).
* * *
Dois diretores-gênios do cinema mundial partiram para o andar de cima quase que ao mesmo tempo. O que me faz pensar que a próximo tarefa do cinema de além-túmulo deve ser, no mínimo, grandiosa.
Mas essa notícia me faz pensar que outras mãos vão tomar as armas. Ou câmeras.
31 de julho de 2007
30 de julho de 2007
A Crônica e Eu
Ok, me perdoem os grossos volumes de Dostoiévski e Tolstói, a longa viagem perpetrada por Joyce e García Márquez, as peças de teatro de Ariano Suassuna e William Shakespeare, mas meu estilo literário preferido ainda é a crônica. Sou suspeito pra falar, como jornalista, mas, como quem entra aqui neste blog/confeitaria o faz porque quer, então ouve e come também o que eu produzo. Vamos lá.
A crônica começou como um simples método de narrar fatos em ordem cronológica, falando, em alguns casos, da história de um povo da mesma maneira que um jornal moderno faria (com algum atraso, mas enfim). Existem crônicas desde o primeiro milênio antes da era cristã, na China, bem como também na Grécia e Roma antigas. Uma crônica, o Kojiki, chegou a tornar-se base para uma das religiões mais antigas do mundo, o xintoísmo.
Ela também entrou como parte da narrativa cotidiana dos jornais, só que escrita de uma forma elaborada e com requintes artísticos normalmente não encontrados no texto jornalístico. Jornalismo não é literatura, já dizia o gaúcho Vizeu nas minhas aulas lá na UFPE. Mas crônica, na minha opinião, não deixa de ser uma forma de jornalismo.
Isso não impediu que livros e livros de crônicas escritas diariamente fossem compilados e vendidos, alguns sendo até sucessos de vendas. Grandes escritores tornaram-se mestres da palavra na língua portuguesa utilizando este estilo, como Luís Fernando Veríssimo, Carlos Eduardo Novaes e Stanislaw Ponte Preta. Outros transitaram entre outros estilos mas não deixaram de dar sua canja nas páginas dos periódicos, como Drummond, Clarice Lispector, Millôr, Moacyr Scliar, e tantos outros.
O que mais me atrai neste estilo é justamente a sua atualidade, bem como uma maneira interessante (e na maioria das vezes, charmosa e elegante) de mostrar os fatos do cotidiano. O uso da ironia e do sarcasmo, por influências destes escritores, tornou-se coisa corriqueira entre cronistas de qualquer lugar do país, mas nem sempre com a mesma sagacidade. Como se tivessem, inadvertidamente, aberto a caixa de Pandora das mazelas da produção literária em jornais. Mas não se enganem: é preciso jeito para fazer uma boa crônica.
P.S.: obviamente, não estou querendo dizer aqui que eu tenha. Pra falar a verdade, acho que não tenho nenhum, o que me impediu de escrever algo mais interessante e menos factual por aqui.
P.P.S.: quer indicativo maior de inveja dos cronistas que o post scriptum acima?
A crônica começou como um simples método de narrar fatos em ordem cronológica, falando, em alguns casos, da história de um povo da mesma maneira que um jornal moderno faria (com algum atraso, mas enfim). Existem crônicas desde o primeiro milênio antes da era cristã, na China, bem como também na Grécia e Roma antigas. Uma crônica, o Kojiki, chegou a tornar-se base para uma das religiões mais antigas do mundo, o xintoísmo.
Ela também entrou como parte da narrativa cotidiana dos jornais, só que escrita de uma forma elaborada e com requintes artísticos normalmente não encontrados no texto jornalístico. Jornalismo não é literatura, já dizia o gaúcho Vizeu nas minhas aulas lá na UFPE. Mas crônica, na minha opinião, não deixa de ser uma forma de jornalismo.
Isso não impediu que livros e livros de crônicas escritas diariamente fossem compilados e vendidos, alguns sendo até sucessos de vendas. Grandes escritores tornaram-se mestres da palavra na língua portuguesa utilizando este estilo, como Luís Fernando Veríssimo, Carlos Eduardo Novaes e Stanislaw Ponte Preta. Outros transitaram entre outros estilos mas não deixaram de dar sua canja nas páginas dos periódicos, como Drummond, Clarice Lispector, Millôr, Moacyr Scliar, e tantos outros.
O que mais me atrai neste estilo é justamente a sua atualidade, bem como uma maneira interessante (e na maioria das vezes, charmosa e elegante) de mostrar os fatos do cotidiano. O uso da ironia e do sarcasmo, por influências destes escritores, tornou-se coisa corriqueira entre cronistas de qualquer lugar do país, mas nem sempre com a mesma sagacidade. Como se tivessem, inadvertidamente, aberto a caixa de Pandora das mazelas da produção literária em jornais. Mas não se enganem: é preciso jeito para fazer uma boa crônica.
P.S.: obviamente, não estou querendo dizer aqui que eu tenha. Pra falar a verdade, acho que não tenho nenhum, o que me impediu de escrever algo mais interessante e menos factual por aqui.
P.P.S.: quer indicativo maior de inveja dos cronistas que o post scriptum acima?
27 de julho de 2007
Ah, Que é Isso, Elas Estão Descontroladas...
Está no ar o blog do movimento Cansei, que já tem o apoio de "movimentos da sociedade civil" como a OAB, a ABERJ, a Fiesp, algumas agências de publicidade e... hã... o irmão de Ivete Sangalo (o que poderia denotar a explosão de dor que as bandas de axé baianas estão sentindo com a morte do rei).
Agora eu pergunto: quantas associações de bairro, sindicatos, pastorais, cooperativas, enfim, representando o resto do zé povinho que ganha menos de 3 salários mínimos por dia, estão apoiando o tal movimento?
É lógico que o principal motivo para estourar essa "revolta incontida", entre outras coisas, é a crise aérea. Eu sei que isso não é necessariamente desculpa para que as pessoas não tenham um serviço de aviação decente, mas qual a parcela da população brasileira tem realmente condições de viajar de avião?
Problemas sociais ocorrem no Brasil desde que um português escroto armou uma casa de taipa em algum lugar do litoral do país e começou a chamar os índios de "bugres preguiçosos". A lista é extensa: escravidão, ausência de serviços públicos de bem-estar social, falta de direitos trabalhistas, falta de sufrágio universal, secas no Nordeste, coronelismo, militares com mania de "salvação nacional"... E agora por causa das filas nos aeroportos essa gente vem ter xilique?
Sinceramente, isso na minha terra tem outro nome: pití.
* * *
Uma máxima de botequim diz que as aparências enganam. Uma colega minha, de profissão (ou pelo menos de curso superior) deu o primeiro passo (ou melhor, segundo) para fugir do desemprego crônico que vivemos e agora, ela, de uma mente intrigante e desafiadora, foi parar... no horário água-com-açúcar das novelas da Globo. Pasme!
Agora eu pergunto: quantas associações de bairro, sindicatos, pastorais, cooperativas, enfim, representando o resto do zé povinho que ganha menos de 3 salários mínimos por dia, estão apoiando o tal movimento?
É lógico que o principal motivo para estourar essa "revolta incontida", entre outras coisas, é a crise aérea. Eu sei que isso não é necessariamente desculpa para que as pessoas não tenham um serviço de aviação decente, mas qual a parcela da população brasileira tem realmente condições de viajar de avião?
Problemas sociais ocorrem no Brasil desde que um português escroto armou uma casa de taipa em algum lugar do litoral do país e começou a chamar os índios de "bugres preguiçosos". A lista é extensa: escravidão, ausência de serviços públicos de bem-estar social, falta de direitos trabalhistas, falta de sufrágio universal, secas no Nordeste, coronelismo, militares com mania de "salvação nacional"... E agora por causa das filas nos aeroportos essa gente vem ter xilique?
Sinceramente, isso na minha terra tem outro nome: pití.
* * *
Uma máxima de botequim diz que as aparências enganam. Uma colega minha, de profissão (ou pelo menos de curso superior) deu o primeiro passo (ou melhor, segundo) para fugir do desemprego crônico que vivemos e agora, ela, de uma mente intrigante e desafiadora, foi parar... no horário água-com-açúcar das novelas da Globo. Pasme!
26 de julho de 2007
Fervor No Dos Outros...
Dúvida recorrente, ainda mais quando consideramos os sul-coreanos, evangélicos em peso (entre os que têm religião, já que perto de 60% do país não professa nenhuma): Se o fervor é tão grande, por que não vão para o Afeganistão tentar evangelizar talebans?
Mordi a língua.
É, esses levaram à risca mesmo o negócio...
Mordi a língua.
É, esses levaram à risca mesmo o negócio...
25 de julho de 2007
Rezando pra Franco
O Hermenauta postou uma ótima notícia sobre a opinião da elite/classe média e dos pobres do Brasil sobre o acidente de Congonhas. Ela revela muita coisa sobre aquilo que muita gente está chamando de ampliação do abismo social existente entre ambas as classes, embora uma detenha a maior parte das riquezas do país e a outra... bom, a outra detém o resto.
Uma discussão também estava rolando em uma comunidade do Orkut da qual faço parte, o Botequim Socialista. Nessa discussão, as pessoas comentavam, inclusive de maneira assustada, o quanto essa parcela da sociedade anda defendendo valores como moral (conservadora), família (conservadora), propriedade (conservadora) e Deus (esse serve tanto a gregos quanto a troianos). A defesa de livre mercado, sinto informar aos liberais de plantão, é mero acessório, uma vez que se abraça qualquer ideologia de mercado que esteja em consonância com os outros itens acima citados (muita gente considerou Perón de esquerda, e sem falar naquela pendenga ainda não resolvida do nazismo ser de esquerda).
Basta ter um mínimo de conhecimentos de História mundial para saber o que rolou na Espanha pouco antes da guerra civil. Os republicanos viviam um momento de disputas internas dentro do governo, em grande parte causada pela ampla frente que formaram (a grande maioria de socialistas, comunistas e anarco-socialistas, mas os liberais espanhóis também estavam lá). Parece que esse governo também não sabia muito bem o que fazer, ou o que priorizar. Aí, no meio do turbilhão, surge o baixinho galego líder de um grupo conhecido como a Falange, que se revolta com uma guarnição do Exército no Marrocos espanhol. Ele vinha com uma conversa estranha de defesa de Deus, Pátria, Família etc. O resto a gente já sabe.
Eu achava antes que nós estávamos era à beira de uma Revolução Francesa, com o povo adquirindo consciência de "povo" mesmo, e uma elite assustada com medo de perder benefícios. Mas parece que as coisas rumam para um ciclo mais recente da História e de seu motor, a boa e velha luta de classes preferida do velho barbudo.
Uma discussão também estava rolando em uma comunidade do Orkut da qual faço parte, o Botequim Socialista. Nessa discussão, as pessoas comentavam, inclusive de maneira assustada, o quanto essa parcela da sociedade anda defendendo valores como moral (conservadora), família (conservadora), propriedade (conservadora) e Deus (esse serve tanto a gregos quanto a troianos). A defesa de livre mercado, sinto informar aos liberais de plantão, é mero acessório, uma vez que se abraça qualquer ideologia de mercado que esteja em consonância com os outros itens acima citados (muita gente considerou Perón de esquerda, e sem falar naquela pendenga ainda não resolvida do nazismo ser de esquerda).
Basta ter um mínimo de conhecimentos de História mundial para saber o que rolou na Espanha pouco antes da guerra civil. Os republicanos viviam um momento de disputas internas dentro do governo, em grande parte causada pela ampla frente que formaram (a grande maioria de socialistas, comunistas e anarco-socialistas, mas os liberais espanhóis também estavam lá). Parece que esse governo também não sabia muito bem o que fazer, ou o que priorizar. Aí, no meio do turbilhão, surge o baixinho galego líder de um grupo conhecido como a Falange, que se revolta com uma guarnição do Exército no Marrocos espanhol. Ele vinha com uma conversa estranha de defesa de Deus, Pátria, Família etc. O resto a gente já sabe.
Eu achava antes que nós estávamos era à beira de uma Revolução Francesa, com o povo adquirindo consciência de "povo" mesmo, e uma elite assustada com medo de perder benefícios. Mas parece que as coisas rumam para um ciclo mais recente da História e de seu motor, a boa e velha luta de classes preferida do velho barbudo.
24 de julho de 2007
Complexo de Brasil x Argentina
Quem viu a cena sabe do que falo. Já são 3 finais de futebol consecutivas que os hermanos perdem para nós. Eu nunca fui muito fã de Dunga, e tenho ojeriza a Parreira. Mas parece que quando se trata de jogar contra a Argentina, os maiores pernas de pau viram craques de uma hora pra outra. Ou então são os argentinos que ficam a ponto de pedirem pra cagar e sair.
Até aí tudo bem, coisas do futebol. Os brasileiros tremiam nas bases também quando ouviam falar de Argentina na época áurea de Maradona, na segunda metade da década de 80. Mas algo que não engulo foram as recusas repetidas dos argentinos de não receberem a medalha de prata ao final de cada jogo. Pombas, eu sei que existe um preconceito enorme dos brasileiros sobre os argentinos no que diz respeito à sua empáfia e orgulho portenhos. Mas dar combustível para criar animosidades é dose.
A história se repetiu novamente neste Panamericano, com o handebol. Os argentinos recusaram a medalha de prata e saíram embaixo de uma chuva de vaias, bem merecidas na minha opinião. Adoro o país e tudo o mais, mas falta de espírito esportivo é dose pra mim. Se quisessem, sei lá, protestar contra a organização, que fizessem uma declaração na imprensa, levantassem um punho fechado, abaixassem as calças e mostrassem a bunda, mas tirar a medalha é o caminho mais curto para levar a opinião pública contra si.
As nossas meninas (do basquete e do vôlei) também sofrem do mesmo mal, mas são mais democráticas - tremem em qualquer final. São especialistas em morrer na praia, jogando inexplicavelmente pior que nos últimos jogos e contra um adversário que nem poderia merecer tanto respeito assim. Mas pelo menos não recusam medalha ganha.
Até aí tudo bem, coisas do futebol. Os brasileiros tremiam nas bases também quando ouviam falar de Argentina na época áurea de Maradona, na segunda metade da década de 80. Mas algo que não engulo foram as recusas repetidas dos argentinos de não receberem a medalha de prata ao final de cada jogo. Pombas, eu sei que existe um preconceito enorme dos brasileiros sobre os argentinos no que diz respeito à sua empáfia e orgulho portenhos. Mas dar combustível para criar animosidades é dose.
A história se repetiu novamente neste Panamericano, com o handebol. Os argentinos recusaram a medalha de prata e saíram embaixo de uma chuva de vaias, bem merecidas na minha opinião. Adoro o país e tudo o mais, mas falta de espírito esportivo é dose pra mim. Se quisessem, sei lá, protestar contra a organização, que fizessem uma declaração na imprensa, levantassem um punho fechado, abaixassem as calças e mostrassem a bunda, mas tirar a medalha é o caminho mais curto para levar a opinião pública contra si.
As nossas meninas (do basquete e do vôlei) também sofrem do mesmo mal, mas são mais democráticas - tremem em qualquer final. São especialistas em morrer na praia, jogando inexplicavelmente pior que nos últimos jogos e contra um adversário que nem poderia merecer tanto respeito assim. Mas pelo menos não recusam medalha ganha.
23 de julho de 2007
Como um Cinema
Kino. Em alfabeto cirílico, Кино. Significa cinema, em russo. Mas também é uma das bandas mais interessantes que eu já vi. E com uma história mais do que adequada à sua época.
Eu devo ser uma parte componente da meia dúzia de malucos que provavelmente sabe da existência (nesse caso, existência predecessa) deles aqui no Brasil. Como quem sabe da existência é geek o suficiente pra procurar as letras e a história da banda, então nem me sinto tão solitário em minha geek-ice. Mas na Rússia, pode-se dizer que as coisas são diferentes, no mínimo.
Kino surgiu na União Soviética mais ou menos em 1982, embora se saiba que seu vocalista e cérebro por trás das letras, Viktor Tsoi (um russo-coreano entre os 500 mil que viviam lá na época), esteve ativo na cena pop-rock russa antes disso. As coisas nunca foram exatamente fáceis na União Soviética para as bandas de rock, principalmente nos últimos anos do governo Brezhnev, e durante os governos Andropov e Chernenko. Não que fosse estritamente proibido, mas na prática não recebiam apoio, divulgação, espaço no portfólio da distribuidora estatal Melodiya, e de quebra levavam a pecha de música de maconheiro e baderneiro (já viu algo parecido?). Mas pra tudo, como acontece em situações de exceção, dá-se um jeito.
Rock terminou sendo uma coisa meio underground por lá, principalmente na cidade de Leningrado, hoje São Petersburgo. Os músicos gravavam suas músicas em estúdios improvisados (com equipamentos construídos por debaixo dos panos nas faculdades de eng. eletrônica) e faziam shows que lembrariam aquilo que nós, no Ocidente, costumamos chamar jam session ou acústico. Isso dentro de um apartamento de uma alma caridosa que cedesse o espaço e com pouquíssima gente assistindo, para não chamar atenção da polícia. A exceção era o Rock Club de Leningrado, que realizava um festival anual, e foi onde surgiu o Kino e os sucessos de seu primeiro LP, "45". Não gravaram oficialmente até 85, mas, num fenômeno análogo ao que ocorre hoje em dia com as mp3, ficaram famosos só através de fitas que eram copiadas individualmente, boca-a-boca, e distribuídas por TODA a URSS. A cara de menino mal e rebelde de Tsoi ajudava e muito, sendo que até hoje ele é sex symbol até pra menininhas de 15 anos.
A glasnost facilitou as coisas para a banda, que já era conhecida por criticar abertamente o governo soviético (embora Tsoi não gostasse muito do teor ideológico das manifestações juvenis que levaram ao fim brusco da URSS) e transformou-se em um ícone da rebeldia juvenil em todo o país. O álbum "Gruppa Krovi", "Grupo de Sangue", provocou um fenômeno conhecido como "kinomania". Um mega-show realizado em 1990 no Estádio Luzhniki, em Moscou, levou 65 mil pessoas a prestigiar naquele que seria a maior, e a última, performance ao vivo.
Tsoi havia terminado de gravar os vocais do novo álbum do Kino no verão de 1990 em Riga, hoje Letônia, e pegou o carro para voltar a Leningrado para gravar o instrumental com o resto da banda. Pouco tempo depois de deixar a área urbana, bateu violentamente contra um ônibus e morreu na hora. O estrago foi tão grande que até hoje um dos pneus não foi encontrado. No entanto, as fitas originais com os vocais estavam intactas, e deram origem ao último álbum antes do fim definitivo do Kino, "Chorniy albom", o "Álbum Negro". Até hoje, eles são referenciados de maneira semelhante ao que o Legião Urbana é para o Brasil.
E musicalmente, até que são parecidos. :P
Eu devo ser uma parte componente da meia dúzia de malucos que provavelmente sabe da existência (nesse caso, existência predecessa) deles aqui no Brasil. Como quem sabe da existência é geek o suficiente pra procurar as letras e a história da banda, então nem me sinto tão solitário em minha geek-ice. Mas na Rússia, pode-se dizer que as coisas são diferentes, no mínimo.
Kino surgiu na União Soviética mais ou menos em 1982, embora se saiba que seu vocalista e cérebro por trás das letras, Viktor Tsoi (um russo-coreano entre os 500 mil que viviam lá na época), esteve ativo na cena pop-rock russa antes disso. As coisas nunca foram exatamente fáceis na União Soviética para as bandas de rock, principalmente nos últimos anos do governo Brezhnev, e durante os governos Andropov e Chernenko. Não que fosse estritamente proibido, mas na prática não recebiam apoio, divulgação, espaço no portfólio da distribuidora estatal Melodiya, e de quebra levavam a pecha de música de maconheiro e baderneiro (já viu algo parecido?). Mas pra tudo, como acontece em situações de exceção, dá-se um jeito.
Rock terminou sendo uma coisa meio underground por lá, principalmente na cidade de Leningrado, hoje São Petersburgo. Os músicos gravavam suas músicas em estúdios improvisados (com equipamentos construídos por debaixo dos panos nas faculdades de eng. eletrônica) e faziam shows que lembrariam aquilo que nós, no Ocidente, costumamos chamar jam session ou acústico. Isso dentro de um apartamento de uma alma caridosa que cedesse o espaço e com pouquíssima gente assistindo, para não chamar atenção da polícia. A exceção era o Rock Club de Leningrado, que realizava um festival anual, e foi onde surgiu o Kino e os sucessos de seu primeiro LP, "45". Não gravaram oficialmente até 85, mas, num fenômeno análogo ao que ocorre hoje em dia com as mp3, ficaram famosos só através de fitas que eram copiadas individualmente, boca-a-boca, e distribuídas por TODA a URSS. A cara de menino mal e rebelde de Tsoi ajudava e muito, sendo que até hoje ele é sex symbol até pra menininhas de 15 anos.
A glasnost facilitou as coisas para a banda, que já era conhecida por criticar abertamente o governo soviético (embora Tsoi não gostasse muito do teor ideológico das manifestações juvenis que levaram ao fim brusco da URSS) e transformou-se em um ícone da rebeldia juvenil em todo o país. O álbum "Gruppa Krovi", "Grupo de Sangue", provocou um fenômeno conhecido como "kinomania". Um mega-show realizado em 1990 no Estádio Luzhniki, em Moscou, levou 65 mil pessoas a prestigiar naquele que seria a maior, e a última, performance ao vivo.
Tsoi havia terminado de gravar os vocais do novo álbum do Kino no verão de 1990 em Riga, hoje Letônia, e pegou o carro para voltar a Leningrado para gravar o instrumental com o resto da banda. Pouco tempo depois de deixar a área urbana, bateu violentamente contra um ônibus e morreu na hora. O estrago foi tão grande que até hoje um dos pneus não foi encontrado. No entanto, as fitas originais com os vocais estavam intactas, e deram origem ao último álbum antes do fim definitivo do Kino, "Chorniy albom", o "Álbum Negro". Até hoje, eles são referenciados de maneira semelhante ao que o Legião Urbana é para o Brasil.
E musicalmente, até que são parecidos. :P
20 de julho de 2007
O Patronímico na Cultura Nordestina
Foi escrevendo o último post que percebi o quanto se usa o patronímico de maneira informal por aqui. Não na minha geração, já sob pesada influência da cultura de massa (que, em nosso país, significa a homogeinização vinda através da Globo carioca), mas principalmente na geração imediatamente anterior, a de nossos pais. A coisa mais normal do mundo pra eles é referir-se a alguém, geralmente com um homônimo muito próximo, como Fulano filho de Sicrano, ou Sicrana, já que até o matronímico também é corrente. Em muitos casos até mais comum.
O uso mais próximo de nós é em nossa própria língua, e em muitas línguas latinas. A partícula "de" remonta a um ancestral comum, geralmente nobre. No português do Brasil a coisa avacalhou um pouco, mas na França ter um nome com "de" muitas vezes é um indicativo de que o portador do nome é um riquinho pedante.
Na Indonésia não existem sobrenomes, mas às vezes pode-se usar um nome relativo a um ancestral imediato para reclamar títulos de nobreza. A ex-presidente "energética", Megawati Sukarnoputri, provavelmente quis aproveitar o prestígio que o pai dela, só Sukarno, tem como libertador do país contra os holandeses. Na Rússia existem sobrenomes, mas todo mundo tem um patronímico, o nome do meio, que varia de acordo com o sexo da pessoa e com o nome do pai. Dessa forma, alguém cujo pai se chama, digamos, Nikolai, pode ter o nome Nikolaievitch ou Nikolaievna, respectivamente homem e mulher.
Também existe com uma raiz diferente através da língua inglesa. Nomes como Johnson, Robson, Benson, e mais um monte remontam a um passado no qual o patriarca da família era John, Robert ou Benjamin. Na Irlanda e na Escócia, países de tradição céltica, quem cumpre esse papel é o Mac- anterior a cada sobrenome, ou na sua anglicização irlandesa e contração de of, O'.
Mas a situação mais próxima de nós, e que curiosamente nos interessa mais apesar de tão distante, está nos vikings antigos e em seu resultado moderno, os islandeses e faroeses. Nestes países (lembrando que as Faroe são ilhas-dependência dinamarquesas), não existem sobrenomes no sentido estrito da palavra, mas apenas um patronímico (ou matronímico) que é seguido à risca, sob pena de não receber registro no cartório, com raras exceções. Por exemplo, a famosa cantora se chama Björk Guðmundsdóttir, enquanto que o vocalista do Sigur Rós (por sua vez uma versão estilizada do nome de sua irmã, Sígurrós) é Jón Þór Birgisson.
Essas criaturas de nomes estranhíssimos (o ð se pronuncia como o th- de the e o Þ como o th- de through) na verdade possuem uma raiz muito simples, e um pouco de inglês ajuda a matar a charada. Dóttir significa filha em islandês, e són significa filho. Pegando a raiz de cada patronímico ou matronímico, dá pra ver que Björk é filha de um sujeito chamado Guðmund, enquanto que Jón é filho de uma cristã (imagino) chamada Birgit. Em faroês é basicamente a mesma coisa, já que as duas línguas são praticamente idênticas.
[ironia]Ah, o Nordeste e suas raízes européias medievais...[/ironia]
O uso mais próximo de nós é em nossa própria língua, e em muitas línguas latinas. A partícula "de" remonta a um ancestral comum, geralmente nobre. No português do Brasil a coisa avacalhou um pouco, mas na França ter um nome com "de" muitas vezes é um indicativo de que o portador do nome é um riquinho pedante.
Na Indonésia não existem sobrenomes, mas às vezes pode-se usar um nome relativo a um ancestral imediato para reclamar títulos de nobreza. A ex-presidente "energética", Megawati Sukarnoputri, provavelmente quis aproveitar o prestígio que o pai dela, só Sukarno, tem como libertador do país contra os holandeses. Na Rússia existem sobrenomes, mas todo mundo tem um patronímico, o nome do meio, que varia de acordo com o sexo da pessoa e com o nome do pai. Dessa forma, alguém cujo pai se chama, digamos, Nikolai, pode ter o nome Nikolaievitch ou Nikolaievna, respectivamente homem e mulher.
Também existe com uma raiz diferente através da língua inglesa. Nomes como Johnson, Robson, Benson, e mais um monte remontam a um passado no qual o patriarca da família era John, Robert ou Benjamin. Na Irlanda e na Escócia, países de tradição céltica, quem cumpre esse papel é o Mac- anterior a cada sobrenome, ou na sua anglicização irlandesa e contração de of, O'.
Mas a situação mais próxima de nós, e que curiosamente nos interessa mais apesar de tão distante, está nos vikings antigos e em seu resultado moderno, os islandeses e faroeses. Nestes países (lembrando que as Faroe são ilhas-dependência dinamarquesas), não existem sobrenomes no sentido estrito da palavra, mas apenas um patronímico (ou matronímico) que é seguido à risca, sob pena de não receber registro no cartório, com raras exceções. Por exemplo, a famosa cantora se chama Björk Guðmundsdóttir, enquanto que o vocalista do Sigur Rós (por sua vez uma versão estilizada do nome de sua irmã, Sígurrós) é Jón Þór Birgisson.
Essas criaturas de nomes estranhíssimos (o ð se pronuncia como o th- de the e o Þ como o th- de through) na verdade possuem uma raiz muito simples, e um pouco de inglês ajuda a matar a charada. Dóttir significa filha em islandês, e són significa filho. Pegando a raiz de cada patronímico ou matronímico, dá pra ver que Björk é filha de um sujeito chamado Guðmund, enquanto que Jón é filho de uma cristã (imagino) chamada Birgit. Em faroês é basicamente a mesma coisa, já que as duas línguas são praticamente idênticas.
[ironia]Ah, o Nordeste e suas raízes européias medievais...[/ironia]
Ingredientes:
cultura,
nordeste,
relações internacionais
19 de julho de 2007
Caderneta do Matuto Pós-Moderno
(Adaptado de série produzida por Jessier Quirino, poeta popular paraibano)
- Ver quem é aquela trepeça amiga de Biu de Olindina que fuçou no meu orkut;
- Comprar dois CD-R's para gravar os 20 volumes de Forró Calcinha Preta para Tonho Boyzinho colocar no MP3 novo do Chevette dele;
- Passar os mesmos CD's para o iPod paraguaio de Corrinha;
- Desenrolar com o cambista dois ingressos de meia entrada para o show dos Aviões do Forró;
- Pegar no alfaiate as duas calças que comprei em Toritama e mandei ajeitar;
- Ir no sítio ver a situação do cavalo "Gigabyte" para a vaquejada de Recife; aproveitar e falar com o veterinário pra ver se não vai dar merda o cruzamento do reprodutor "boér" novo com as cabras moxotós que já tinham por lá;
- Mandar um e-mail pra Luís de Júlia Branca pedindo pra passar a máquina no açude que secou;
- Pedir pra Zequinha de Eulália acompanhar o reboque com o carro de papai até a concessionária, em Caruaru (em tempo, dizer a pai que eu bem que avisei que esses Omegas australianos não podem rodar no areal da Vargem Velha);
- Na volta, comprar o CD pirata de Harry Potter novo pra Kellynha;
- Dar um toque com o chip da Oi, que tá com mais créditos, para Luana, avisando que só vou ficar na festa até uma da manhã e que depois deixo ela em casa;
- Mandar uma mensagem de texto, com o chip da TIM, avisando a Conceição que duas da manhã tou livre da jararaca.
- Ver quem é aquela trepeça amiga de Biu de Olindina que fuçou no meu orkut;
- Comprar dois CD-R's para gravar os 20 volumes de Forró Calcinha Preta para Tonho Boyzinho colocar no MP3 novo do Chevette dele;
- Passar os mesmos CD's para o iPod paraguaio de Corrinha;
- Desenrolar com o cambista dois ingressos de meia entrada para o show dos Aviões do Forró;
- Pegar no alfaiate as duas calças que comprei em Toritama e mandei ajeitar;
- Ir no sítio ver a situação do cavalo "Gigabyte" para a vaquejada de Recife; aproveitar e falar com o veterinário pra ver se não vai dar merda o cruzamento do reprodutor "boér" novo com as cabras moxotós que já tinham por lá;
- Mandar um e-mail pra Luís de Júlia Branca pedindo pra passar a máquina no açude que secou;
- Pedir pra Zequinha de Eulália acompanhar o reboque com o carro de papai até a concessionária, em Caruaru (em tempo, dizer a pai que eu bem que avisei que esses Omegas australianos não podem rodar no areal da Vargem Velha);
- Na volta, comprar o CD pirata de Harry Potter novo pra Kellynha;
- Dar um toque com o chip da Oi, que tá com mais créditos, para Luana, avisando que só vou ficar na festa até uma da manhã e que depois deixo ela em casa;
- Mandar uma mensagem de texto, com o chip da TIM, avisando a Conceição que duas da manhã tou livre da jararaca.
18 de julho de 2007
200 Almas
Reproduzo aqui meu comentário na comunidade "Botequim Socialista", do Orkut, no thread "Acidente da TAM". Ele sintetiza tudo o que eu penso sobre o assunto. Desde já, meus pêsames às famílias, que não poderiam ter sido vítimas desse tour de force entre empresas aéreas e governo.
"Lembrem-se também do papel das próprias companhias aéreas, que contribuíram, ainda que indiretamente, para o acidente. Congonhas nunca poderia estar operando esse volume de vôos diariamente, por sua proximidade de áreas urbanas. No entanto, é mantido funcionando nesse ritmo por pressão das companhias aéreas que operam a ponte aérea, pelo fato de ser justamente o aeroporto mais próximo do centro paulista.
Para tanto, é necessária uma ação governamental fortíssima (e que já deveria ter sido feita antes), no sentido de:
1) Limitar o tamanho e o tipo de aviões operados em Congonhas (e, acredito eu, também no Santos Dumont, pelo fato de ter somente água depois das pistas) para modelos do tipo STOL, e com capacidade máxima para 70 passageiros;
2) Desencorajar a utilização de Congonhas como hub nacional, transferindo a responsabilidade para Guarulhos e até mesmo Viracopos;
3) Iniciar a construção de um terceiro aeroporto na capital paulista o quanto antes e em ritmo de urgência, destinado a acolher o tráfego internacional. A alternativa parece ser a mais inteligente, pela atual impossibilidade de se ampliar os atuais existentes (e transformar em algo do porte do JFK e Chicago-O'Hare) e foi aplicada com sucesso em cidades como Londres, Berlim e Moscou;
4) Favorecer a aviação regional e o estabelecimento de hubs internacionais em outras capitais do país, tais como Brasília e Belo Horizonte;
5) Oferecer outras alternativas de transporte de alta velocidade no eixo Rio-São Paulo, como os trens de alta velocidade."
A pedido de um conhecido de comunidade, incluo uma 6ª. diretriz: melhorar a infraestrutra de transporte dos aeroportos para o centro das cidades.
Sem mais.
"Lembrem-se também do papel das próprias companhias aéreas, que contribuíram, ainda que indiretamente, para o acidente. Congonhas nunca poderia estar operando esse volume de vôos diariamente, por sua proximidade de áreas urbanas. No entanto, é mantido funcionando nesse ritmo por pressão das companhias aéreas que operam a ponte aérea, pelo fato de ser justamente o aeroporto mais próximo do centro paulista.
Para tanto, é necessária uma ação governamental fortíssima (e que já deveria ter sido feita antes), no sentido de:
1) Limitar o tamanho e o tipo de aviões operados em Congonhas (e, acredito eu, também no Santos Dumont, pelo fato de ter somente água depois das pistas) para modelos do tipo STOL, e com capacidade máxima para 70 passageiros;
2) Desencorajar a utilização de Congonhas como hub nacional, transferindo a responsabilidade para Guarulhos e até mesmo Viracopos;
3) Iniciar a construção de um terceiro aeroporto na capital paulista o quanto antes e em ritmo de urgência, destinado a acolher o tráfego internacional. A alternativa parece ser a mais inteligente, pela atual impossibilidade de se ampliar os atuais existentes (e transformar em algo do porte do JFK e Chicago-O'Hare) e foi aplicada com sucesso em cidades como Londres, Berlim e Moscou;
4) Favorecer a aviação regional e o estabelecimento de hubs internacionais em outras capitais do país, tais como Brasília e Belo Horizonte;
5) Oferecer outras alternativas de transporte de alta velocidade no eixo Rio-São Paulo, como os trens de alta velocidade."
A pedido de um conhecido de comunidade, incluo uma 6ª. diretriz: melhorar a infraestrutra de transporte dos aeroportos para o centro das cidades.
Sem mais.
Assinar:
Postagens (Atom)